domingo, 21 de outubro de 2012

Escrevendo a Vida


Um comentário:

  1. CRÕNICA DE "LUIZ VERÍSSIMO"

    Este foi o primeiro texto "publicado" pelo embrionário
    Projeto Releituras, no dia 23 de maio de 1996.



    O Apito

    Luis Fernando Verissimo


    Tudo o que o Mafra dizia, o Dubin duvidava. Eram inseparáveis, mas viviam brigando. Porque o Mafra contava histórias fantásticas e o Dubin sempre fazia aquela cara de conta outra.

    — Uma vez...

    — Lá vem história.

    — Eu nem comecei e você já está duvidando?

    — Duvidando, não. Não acredito mesmo.

    — Mas eu nem contei ainda!

    — Então conta.

    — Uma vez eu fui a um baile só de pernetas e...

    — Eu não disse? Eu não disse?

    O Mafra às vezes fazia questão de provar as suas histórias para o Dubin.

    — Dubin, eu sou ou não sou pai-de-santo honorário?

    O Dubin relutava, mas confirmava.

    — É.

    Mas em seguida arrematava:

    — Também, aquele terreiro está aceitando até turista argentino...

    Então veio o caso do apito. Um dia, numa roda, assim no mais , o Mafra revelou:

    — Tenho um apito de chamar mulher.

    — O quê?

    — Um apito de chamar mulher.

    Ninguém acreditou. O Dubin chegou a bater com a cabeça na mesa, gemendo:

    — Ai meu Deus! Ai meu Deus!

    — Não quer acreditar, não acredita. Mas tenho.

    — Então mostra.

    — Não está aqui. E aqui não precisa apito. É só dizer "vem cá".

    O Dubin gesticulava para o céu, apelando por justiça.

    — Um apito de chamar mulher! Só faltava essa!

    Mas aconteceu o seguinte: Mafra e Dubin foram juntos numa viagem (Mafra queria provar ao Dubin que tinha mesmo terras na Amazônia, uma ilha que mudava de lugar conforme as cheias) e o avião caiu em plena selva. Ninguém se pisou, todos sobreviveram e depois de uma semana a frutas e água foram salvos pela FAB. Na volta, cercados pelos amigos, Mafra e Dubin contaram sua aventura. E Mafra, triunfante, pediu para Dubin:

    — Agora conta do meu apito.

    — Conta você — disse Dubin, contrafeito.

    — O apito existia ou não existia?

    — Existia.

    — Conta, conta — pediram os outros.

    — Foi no quarto ou quinto dia. Já sabíamos que ninguém morreria. A FAB já tinha nos localizado. O salvamento era só uma questão de tempo. Então, naquela descontração geral, tirei o meu apito do bolso.

    — O tal de chamar mulher?

    — Exato. Estou mentindo, Dubinzinho?

    — Não — murmurou Dubinzinho.

    — Soprei o apito e pimba.

    — Apareceram mulheres?

    — Coisa de dez minutos. Três mulheres.

    Todos se viraram para o Dubin incrédulos.

    — É verdade?

    — É — concedeu Dubin.

    Fez-se um silêncio de puro espanto. No fim do qual Dubin falou outra vez:

    — Mas também, era cada bucho!


    A crônica acima foi extraída do livro "Outras do analista de Bagé", L & PM Editores - Porto Alegre, 1982, pág. 15.


    A vida e a obra de Luis Fernando Veríssimo estão em "Biografias".






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